Em outubro de 2025, a Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (ABRAFARMA) anunciou que algumas redes passaram a oferecer o exame de “termografia das mamas” diretamente ao público, sem pedido médico. Embora a proposta seja apresentada como uma estratégia de prevenção e diagnóstico precoce, essa oferta levanta preocupações importantes do ponto de vista técnico, ético e regulatório.
Fundamentação técnico científica
A termografia mamária utiliza sensores infravermelhos para mapear diferenças de temperatura nas mamas, partindo da ideia de que áreas mais quentes possam indicar tumores ou alterações suspeitas.
No entanto, não existem evidências científicas robustas que comprovem eficácia desse método para rastreamento, diagnóstico ou acompanhamento do câncer de mama.
O Parecer Conjunto do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da FEBRASGO de 2023 afirma de forma clara:
“Os dispositivos de atividade térmica, incluindo a termografia infravermelha, não são recomendados para rastreamento, diagnóstico ou acompanhamento do câncer de mama, isoladamente ou em associação à mamografia.”
A mamografia segue sendo o único exame com impacto comprovado na redução da mortalidade, pois detecta alterações antes mesmo que causem sintomas.
Aspectos éticos e legais
Segundo o Conselho Federal de Medicina, toda solicitação, interpretação e indicação de exames com finalidade diagnóstica é um ato privativo do médico, conforme estabelecido em pareceres oficiais.
Por esse motivo, a realização de exames diagnósticos sem pedido médico, com emissão de laudo automático ou interpretação sem supervisão adequada, é considerada conduta inadequada e pode gerar responsabilização dos profissionais e dos estabelecimentos envolvidos.
Avaliação da prática nas farmácias
A oferta da termografia mamária em farmácias traz riscos importantes:
- Ausência de validação científica com risco de falsos negativos, que atrasam o diagnóstico, e de falsos positivos, que geram ansiedade e exames desnecessários.
- Falta de respaldo ético e regulatório uma vez que exames diagnósticos exigem avaliação médica e não fazem parte das atribuições do farmacêutico.
- Impacto negativo nas políticas públicas, pois pode reduzir a adesão à mamografia, que é o exame realmente eficaz no rastreamento do câncer de mama.
- Possível atraso no diagnóstico, já que um resultado considerado normal na termografia pode levar a mulher a acreditar que está tudo bem, deixando de realizar a mamografia.
Recomendações
Com base nas evidências e nas diretrizes vigentes, as entidades médicas brasileiras não recomendam o uso de dispositivos térmicos para avaliação das mamas em qualquer ambiente fora de pesquisas científicas.
As principais recomendações são:
- Suspender a oferta comercial da termografia mamária até que haja comprovação científica sólida e regulamentação adequada.
- Orientar as mulheres a seguirem as diretrizes oficiais de rastreamento, baseadas em mamografia e acompanhamento médico regular.
- Solicitar que o Conselho Federal de Medicina e a ANVISA analisem os riscos éticos e regulatórios dessa prática.
- Incentivar que entidades médicas e conselhos profissionais promovam esclarecimento público sobre métodos validados e os perigos do uso de tecnologias sem comprovação.
Conclusão
A termografia das mamas, apesar de parecer uma alternativa simples e acessível, não substitui a mamografia e não oferece segurança diagnóstica. A saúde da mulher exige métodos validados, acompanhamento médico adequado e escolhas baseadas em evidências, não em tecnologias sem comprovação.





